esperei por ti, mas não apareceste


Esperei por ti, mas não apareceste.
Havia um café para ser tomado as 15h30 em ponto, como combinado.
Eram 15h07.
Alguém, como num café qualquer, estaria impávido e sereno na mesa vizinha e eu, nesta correria pela qual corro para te ver, estaria suado, a tresandar, nada apresentável para o encontro.
Há 2 anos que não nos vemos e tantas vezes prometemos visitarmo-nos, mas por uma razão ou outra nunca tal aconteceu.
Está um caos a Avenida dos Aliados. Depois das obras quase acabadas, ou nunca acabadas, o eléctrico com traça e caruncho já funciona.
Hoje faz sol de suar e a Baixa continua cinzenta.
Estradas cortadas fazem-me inventar caminhos para que tudo dê certo.
Mais uma estrada cortada.
Contornar, neste momento, a Praça da República é uma estupidez, mas serei capaz por ti.
São já 15h20 e continuo no trânsito. Se bem te conheço às 14h00 já lá estarias à minha espera. Ambos conhecemos a expressão: “Mais vale 2 horas adiantado que 5 minutos atrasado”, mas tu sabes, querida, que eu vou sempre pela contradição.
Portanto, hoje, mais uma vez, hoje, corro por ti, para te ver, porque se eu não corresse, sinto que não valerias a pena. Seria um encontro normal entre duas pessoas normais. Portanto saí tarde de casa e desejei chegar a tempo, só porque vales a pena.
É bonito o que eu faço por ti, agora. Corro para te ver porque sinto que mereço o esforço mesmo tu não achando.
Neste momento o banho que tomei já não faz efeito.
Desço agora a Rua do Almada e mais uma ou duas curvas já te tenho nos meus olhos. Não me importo de estacionar onde não devo só para não perder mais tempo, porque como já disse, sinto que vales a pena mesmo tu não achando.
Estou mesmo quase a chegar.
Avisto o Lusitano  e alguém nesse momento entra. Apenas a perna vestida; meia preta e saia de cor. A porta fecha-se. Estaciono o carro no antigo restaurante chinês, agora com um “Trespassa-se”.
Corro para ti com os pés bem assentes no chão. Respiro fundo com a camisa colada ao corpo e despenteio cuidadosamente o cabelo porque, como sei, gostavas dele assim.
A marca de uma mão frágil no vidro da porta, pensei ser a tua. Nunca me esqueceria da forma da tua mão. Da tua forma. Olhos que comem a paisagem e cabelo liso que nem rio que corre. Rio dragado, limpo.
Entro.
Panfletos à porta fazem-me lê-los e ao mesmo tempo um momento de respiração para o momento a seguir.
Sorrio mais ainda porque sei que estou feliz mesmo o nervoso a bater-me no estômago.
Dois casais gay, um senhor a tomar chá, três miúdas que se tocam enquanto se riem e tu.
Onde estás tu?
Como é óbvio, cumprimento o menino do balcão. Sim, menino. Porque como sabes, imberbes são meninos. Homens têm barba rija independentemente da sexualidade.
Corro para o “quarto” em frente e nada de ti.
Sento-me ofegante, estranho, confuso por me ter lembrado que talvez tenha feito confusão com algum local que tinhamos suposto encontrar-nos, mas releio as tuas mensagens e diziam “Lusitano”, “15h30”, “Até já”, “Saudades de ti”, “Beijo”. Era impossível teres ido sem mim porque só são 15h29 e eu consegui chegar a tempo depois desta correria.
Nunca fiquei tão vermelho com tanto calor. Mas hoje estou.
O menino do balcão pergunta-me o que quero tomar. Pergunta-o ao longe porque como eu e ele sabemos, tresando e vejo uma espécie de fumo a sair-me dos poros. Sou um fervedor, um radiador a esvair-se.
Hoje, mesmo com este tempo abafado que respiro, e porque sei que vens, vou pedir uma meia-de-leite para me veres como um homem crescido e capaz de beber algo saudável e não a simples cerveja reles acompanhada com o tremoço e azeitona ou amendoins.
Meia de leite e meia torrada. Aliás, uma torrada inteira porque quero guarda-te as fatias do meio.
São 16h00 e ainda nada de ti. Esperava veres-me a beber a chávena de leite com café, mas já está vazia e 2 cigarros no cinzeiro.
Pergunto por ti ao menino do balcão, mas não te aplicas a niguém que lá tenha estado. Ainda tenho forças para procurar-te outra vez. Basta responderes-me às sete mensagens que te mandei.
Casais chegam e partem. Felizes ou contentes, apenas. Alegres ou sorridentes.
E eu... nem sei como estou nestas 18h23 que me acompanham.
A esta hora sou o único numa mesa para dois. Sozinho, numa mesa para dois que se parece agora gigante, sozinho sem ti.
Espero por ti, mas ainda não apareceste.
O tempo escureceu e já se vê os carros com os mínimos ligados.
Peço o jantar; o nervoso ainda toca no estômago, mas desconfio que agora seja da fome a pedir comida. Às vezes penso que alimento uma ténia desde que nasci. Não me perguntes porquê.
Dois rissóis de carne e uma quiche de sabor estranho. E agora sim, a cerveja reles e bem fresca.
Acho que desisto, agora. Agora que estou lúcido e perdi um dia de trabalho neste eterno domingo que é o desemprego.
É fascinante como a barba cresceu desde que saí de casa para te ver.
Tomo o habitual café e fumo um cigarro. O último deste dia.
Pago e vou-me.
Uma última mensagem para ti, querida.
Sei que não vou ter resposta, mas sinto-me melhor se a mandar. Um último grito de desistência e uma bandeira branca.
Uma multa no limpa pára-brisas, um “lava-me porco” no vidro de trás. E um “trespassa-se” no tejadilho.
Nada podia ter corrido melhor neste final de dia. Neste dia em que o sol fez suar e nunca deixou a Baixa tomar cor...
Neste dia em que esperei por ti, mas não apareceste.

5 comentários:

Inês disse...

beautifully sad

catarina disse...

que milh lindo.

S disse...

ena...

raquel disse...

quero ler o resto!*

I. disse...

Gostei muito, não conhecia esta faceta, apenas a de fotografo, surpreendeu-me. (anónima singular com um novo nome)